Morungava é um dos quatro distritos do município de Gravataí, pouco desenvolvido, e talvez por isso, pouco habitado. Seu maior contingente populacional habita às margens da RS 020, em pequenos vilarejos. A maior parte da população é rural, por serem a maioria descendentes de imigrantes. Hoje vivem basicamente do extrativismo e comércio de pedras de arenito, cultivo de eucaliptos e agricultura de subsistência.
Segundo a história do distrito, ele se chama Morungava devido ao último índio que ali existiu e que assim se chamava.
O relevo daquela região é composto por morros, planícies e vales de arroios que abastecem o rio Gravataí. Nas margens desses arroios ainda existe marcas de um passado, não muito distante. São os velhos moinhos, tafonas e engenhos, por onde passava grande parte da produção agrícola local e depois era vendida nos armazéns de beira de estrada ou nas cidades.
Grande parte das pessoas daquela época já não estão mais ali. Muitos envelheceram e morreram, outros venderam suas terras para famílias que vivem na cidades e ali fizeram sítios de laser para descansar nos finais de semana. Esses sítios também geram trabalho para os moradores do local que fazem a sua manutenção.
Hoje a terra descansa e pouca gente planta nela. Já não vemos mais as grandes colchas de retalhos da monocultura agrícola e a alegria alvissareira do pequeno agricultor as voltas do seu trabalho de sol a sol. Mas ainda existem algumas pessoas que diante de árvores imponentes da floresta atlântica sabem dizer o nome de cada ma delas. Como o uvá vermelho, o camboatá branco, o piquiá, o angico, a guajuwira, a canjerana, o sobraji, o bacupari, e tantas outras que compõem uma flora amplamente diversificada e que abriga uma fauna rica de múltiplas espécies, algumas, já em extinção. Lá ainda existe, embora, pouco se veja, o tamanduá bandeira, a saíra de sete cores, a graúna, o tatu grande, o inambu e outros. De quem os imigrantes aprenderam os nomes dessas árvores e desses bichos, que foram passando de pais para filhos, durante todos estes anos?
As pessoas que se criaram naquele lugar, sabem que aquelas árvores e aqueles animais são protegidos por Lei Federal e denunciam se alguém ignorar isso.
Infelizmente, há pessoas que ignoram lei. Há poucos dias, houve uma intervenção da polícia no Morro do Tigre, em Morungava, na propriedade do grupo Tumelero. Tratoristas que trabalhavam no local receberam a autuação. Mas já era tarde! O morro, segundo o Jornal de Gravataí teve a sua superfície totalmente devastada. Moradores do local contam que algumas arvores foram enterradas em valas na propriedade e não entendem onde foi parar toda aquela madeira que cobria o Moro do Tigre. Um deles fala da tristeza de ver aqueles tratores derrubando tudo e soterrando como se não tivesse nenhum. Segundo ele, os bichos ficaram desesperados, procurando seus ninhos e alguns seus filhotes que foram esmagados e soterrados com as arvores. Os tatus eram arrancados do chão e corriam sem rumo desesperados em meio àquele inferno, sem muita chance de sobrevivência.
MORROS DE MORUNGAVA
- crédito das fotos: Lélia T. Pohren
Segundo a matéria do Jornal de Gravataí do dia 3 de novembro, o Grupo Tumelero teria adquirido uma licença do Estado para o plantio de eucalipto. Mas onde? Se o Morro do Tigre é área preservada por lei? Como deixaram acontecer esse crime ambiental que levou meses para ser executado? Como a secretaria do Meio Ambiente de Gravataí deixou que isso acontecesse sem maior clareza? Descuido? Irresponsabilidade? Ou teria algo mais por traz dessa atrocidade?
As pessoas daquele lugar convivem com a natureza dali. Elas sabem que para derrubar uma árvore, plantar outras ou abrir um açude. Elas precisam de uma licença ambiental e sabem porque isso. E sabem também das conseqüências se isso não for respeitado.
E agora? Quem vai pagar pela devastação do Morro do Tigre? Quanto vão pagar pela trama da vida que romperam, para plantar eucaliptos?
Lélia T. Pohren
parte do complexo de Morros do Itacolomi (menino de pedra, em tupi-guarani), em Morungava
“Quando a última árvore tiver caído,
quando o último rio tiver secado,
quando o último peixe for pescado,
a humanidade vai entender que dinheiro não se come.”
ditado indígena






“Não foi o homem quem teceu a trama da vida. Ele é meramente um fio da mesma e tudo o que o homem fizer à trama, a sí mesmo fará” Seattle
























